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Computadores para escolas primárias pouco abonadas

por alho_politicamente_incorreto, em 31.08.08

Magalhães e a circum-navegação educativa

 

A partir de Setembro próximo, os alunos do 1.º Ciclo do Ensino Básico (CEB), mais fielmente conotado com o Ensino Primário, vão experimentar os singulares encantos de um computador encarado como ferramenta de trabalho que enriqueça a prática pedagógica e combata a infoexclusão.

Em boa verdade, as novas Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) já se tornaram imprescindíveis. Para os menos atentos, cumpre alertar que, na actualidade, mais de metade das casas na Europa tem acesso à Internet e quase todas as pessoas têm telemóvel. Ainda assim, a infoexclusão persiste como um dos grandes reptos da nossa sociedade. Quanto maior é a inclusão das TIC’s na nossa vida económica, social e científica, maior é o fosso entre quem tem acesso e quem o não tem. Por isso, a infoexclusão é um tema profusamente discutido na sociedade actual apesar dos persistentes — aliás, inúmeros — aperfeiçoamentos tecnológicos.

Sabemos, porém, que a literacia digital é um desafio que requer mudanças organizacionais e culturais que vão muito além de se ter acesso e saber utilizar um computador. Ter escolas estruturalmente equipadas é um pressuposto sagrado sem o qual a satisfação de tão meritórios empreendimentos se torna inviável.

Em bom rigor, as nossas escolas primárias - tenha sido por negligência do poder local pós-25 de Abril/1974 ou por acomodação de uma geração de docentes pouco comprometida com o futuro - permanecem um parque jurássico difícil de transformar. A menos que se enlatem os petizes em escolas do 2.º e 3.º Ciclos, com prejuízos ao nível da formação pessoal e social difíceis de reparar, o futuro imediato não se compagina com estas louváveis “inovações”. Se durante o inverno, rara é a sala de aula que suporta dois aquecedores a óleo ligados em simultâneo, resta saber como aguentará 22 ou 24 computadores em pleno funcionamento?!...

Numa fria manhã de Janeiro, em salas de aulas com 2 ou 3 tomadas eléctricas, quem prevalecerá: o frio ou o computador?

No mais, esbateu-se a pujança revolucionária d’”o computador português”. Magalhães mais não é do que a versão lusa – ainda que adaptada – do ClassmatePC, introduzido pela Intel em 2006. Aliás, uma visita despretensiosa a www.classmatepc.com possibilitará um conhecimento mais circunstanciado deste computador, com versões de pendor governamental, já lançadas em 36 países (!) como Brasil, Chile, China, Egipto, México, Líbia, Líbano, Rússia, África do Sul, Gana, Argentina ou Grécia.

Cumulativamente, esta – para já – mera distribuição de computadores poderá estar ferida de maior e melhor arrojo. Primeiro, não foi (até ao momento) elaborado e disponibilizado um Caderno de Actividades multi e transdisiciplinares que, não tendo carácter vinculativo, sirva de referencial comum à optimização daquela preciosa ferramenta de aprendizagem em contexto de sala de aula. Segundo, a iniciativa pecará por não ser mais ambiciosa ao não estender o projecto aos dois anos terminais do ensino Pré-escolar que, como está cientificamente provado, possui um capital enorme de adesão bem sucedida. Naquela faixa etária, a intervenção precoce é recomendável porque maximiza o potencial metacognitivo que se encontrará já em período crucial.

Magalhães tem, contudo, a vantagem de facilitar a democratização do computador uma vez que as crianças poderão, no máximo, adquiri-lo pelo valor de 50 €uros. Para quem usufruir do Escalão A da Acção Social Escolar, Magalhães virá de graça. Para os estudantes do Escalão B, o PC custará 20 €uros. Em todos os casos, não existirá a obrigação de aceder à Internet. Para receber este “brinquedo”, as crianças deverão inscrever-se na Web, colocando o código disponibilizado pela respectiva escola, algo que deverá acontecer durante o primeiro período lectivo do ano escolar 2008/2009.

Não querendo comparar esta medida à inócua ambição de adquirir um DVD sem antes possuir televisão, importa reflectir sobre o pragmatismo indispensável à consecução destes projectos, de inquestionável valia. As escolas primárias, note-se, (ainda) não têm direito a porte pago para a sua correspondência, não possuem orçamento próprio e continuam a ocupar a “cauda de um cometa” demasiado complexo para a necessária e há muito reclamada discriminação positiva.

No mais, realce para o mérito de este equipamento vir a ser montado numa nova unidade de produção da JP Sá Couto/Prológica, a edificar em Matosinhos. Em tempos de crise, a criação de novos e mais postos de trabalho é sempre uma boa notícia.

José Manuel Alho*

(* Professor do 1.º CEB, Especializado em Língua Portuguesa; Promotor do Seminário, realizado na sede da Universidade Aberta (em Lisboa), subordinado ao tema “A Internet na Escola do 1.º CEB”

 

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Casas, cunhas e Câmaras...

por alho_politicamente_incorreto, em 30.08.08

 

A venda de imóveis, as Licenças de Habitabilidade e as autarquias
 
O país vive e atravessa momentos particularmente difíceis, de uma adversidade para muitos inusitada. Arriscaria até a vaticinar que será um nicho circunstancial de actividades económicas a escapar a tão arrasadora depressão financeira. Contudo, de entre esses sortudos, não está o sector imobiliário. A crise também chegou aí.
É incontroverso que, em alturas de vacas gordas, uma prole de experimentados “Chicos-Espertos” soube enriquecer a um ritmo verdadeiramente alucinante, usando e abusando de expedientes ilícitos que, em muitos casos, beneficiaram da compreensão de uns quantos autarcas sedentos de (também) “partilharem” riqueza. Neste rectângulo à beira-mar plantado, se a cunha há muito ganhara estatuto de trunfo consensualmente universalizado, o que desde então se instituiu estará muito perto de ser tomado como uma consistente rede de tráfico de influências e favores que elevam esta nação ao topo de um ranking nada honroso – o da corrupção, mas na sua forma mais grosseira e ostensiva.
Foram tempos de boa e proveitosa malandragem. Generalizaram-se as imobiliárias, que cedo se converteram num séquito mamal, um tipo de guarda avançada dos construtores, bem ao jeito de uma cortina que mantém escondida a verdade das coisas. Gloriosos tempos em que se comprava casas e apartamentos tendo por garantia uma singela planta!...
Com a crise a estender-se sem apelo nem agravo, o mercado tem feito uma dolorosa decantação. Ainda assim, os maus exemplos que logram contornar as malhas da Lei, subsistem com refinado sentido do risco. Ao que constará, as divisões de obras municipais, apesar de mais vigiadas, estarão longe da impermeabilidade não só desejada, mas, acima de tudo, legalmente exigível.
Em abono da verdade, o poder legislativo tem-se esforçado por moralizar uma actividade fundamental à economia nacional. Mas o consumidor/comprador continua a ser o elo mais fraco da cadeia, num intrincado enredo de fretes e graças que escaparão a compreensão do cidadão comum, habituado à lógica simples do retorno em função do mérito e esforço pessoais. Enfim, ingenuidades contemporâneas.
Saiba o caro leitor que falo por experiência própria. Ainda recentemente adquiri casa própria. Ingénuo q.b., deixei-me levar pela prosa fluente de pessoas que sabem usar a dualidade segundo a sua conveniência. Com a racionalidade que o tempo sempre traz, amaldiçoo a minha boa-fé, que terá sido interpretada como verde ingenuidade. O mais grave é que, à semelhança do que sei acontecer com muitos concidadãos, foi atribuída uma Licença de Habitabilidade sem que a moradia estivesse pintada; portões e caixa de correio não existiam, já para não falar nos números de polícia e identificação da urbanização – indispensáveis à entrega do correspondência postal – estão, há largo tempo, por atribuir. Ainda agora me pergunto como se conseguem “estas” Licenças de Habitabilidade...
Em rigor, o que importava é(ra) realizar a escritura de compra e venda do imóvel. Depois, Zé Povinho que se amanhe. Os vendedores sabem usufruir de uma miserável impunidade. Até as obras se realizam com inadmissível desleixo. Abandonam-se materiais na via pública, emitem-se ruídos às horas mais imprevistas, as poeiras são um “mal necessário” e a segurança no trabalho é conceito que uns engenheirinhos feitos à martelada, ainda a tresandar aos cueiros universitários, simplesmente desprezam.
Mas é aqui que entram edilidades, que não podem recusar ser o fiel garante da Lei e do seu efectivo cumprimento. E porquê? Em rigor, não existe respaldo suficientemente credível que ampare a assegure a prevalência dos direitos do consumidor. Quem constrói e vende sabe que só em troca de uma Justiça cara e lenta se verá obrigado a respeitar a Lei. Gente sem honra e escrúpulos pensa e age assim.
Resta-nos esperar que nas Câmaras Municipais esteja gente séria e honesta, insensível a pressões ou a estímulos de origem inconfessável...
José Manuel Alho

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Caso CASA PIA

por alho_politicamente_incorreto, em 30.08.08

 

As palavras que sempre direi
 
Ainda o caso “CASA PIA”. Nos últimos tempos parece ter-se estancado a hemorragia de desenvolvimentos absolutamente desconcertantes num caso que, confirmando suspeitas antigas, ameaça constituir-se paradigma para ulteriores avaliações. Na verdade, e para os que nem sempre dispensaram grande atenção às coisas da Justiça em Portugal, esta é a grande oportunidade para grandes e pequenos, fortes e fracos, ricos e pobres se decidirem a priorizar o aperfeiçoamento desta poderosa mas pesada máquina que assegura, nesta fértil arena terrena, o julgamento dos homens pelo Homem.
Em rigor, a Justiça estará a funcionar. Infelizmente, a constatação do seu funcionamento não será garantia suficiente do seu acerto. Na ignorância do que será o quotidiano processual nos tribunais portugueses, parte considerável da opinião pública tenderá a pensar que “vamos de mal a pior”. Eu, por mim, estarei tentado a presumir que “esta” Justiça, alvo e objecto de escrutínio diário, será mesmo a Justiça que habitualmente se serve numa qualquer sala de audiências perto de si. Daí que todo este processo deva servir para formar judicialmente o cidadão comum, usualmente avesso às complexidades, especificidades e formalidades de um sistema que regula, garante e vigia a SEGURANÇA e a LIBERDADE dos cidadãos num estado democrático.
Não aceitando a presunção de me achar competente para avaliar, no concreto, a conduta dos intervenientes, que decerto farão seu melhor em defesa do seu direito ao sucesso, afigura-se-me ainda assim incontroversa a excessiva verbalização a que muitos parecem ter sucumbido. Há muita gente a falar de mais. Fala o juiz, o advogado, a Provedora, o António das Gaiolas, o Pedopsiquiatra, o jornalista das 7, a florista, o ex-aluno, o Bastonário, o Zeca arrumador, o deputado, o Bispo, o Zézé Camarinha, a amiga do arguido e, no meio de tanta faladura, só apetece decretar, com efeitos imediatos e sem possibilidade de recurso, o “estado da Lei da Rolha”!
Não é que esteja diminuída a liberdade de expressão do contribuinte eleitor ou que a pedofilia, enquanto fenómeno repugnantemente grave, não mereça diversificadas e autorizadas abordagens. Não é nada disso. O que me impressiona negativamente é que muitas dessas personalidades, que parecem aviltar, com penosa leviandade, o Segredo de Justiça, se permitam transformar algo de muito sério num qualquer “reality show”, que se serve sempre às oito. De nada vale vir acenar com os “votos de serenidade e confiança na Justiça” ou garantir que “não comentarei factos concretos e exclusivos deste processo” para logo a seguir, de modo sub-reptício, afirmar as mais provocatórias aleivosias. A continuar assim, ficaremos na história da cultura judicial ocidental por ousarmos conspurcar um ficheiro de excepcional relevância pública numa deplorável película de série B.
Porventura, esta fase de explosão mediática, que parece assolar o país de norte a sul, ajudará a contextualizar esta atmosfera de desmando generalizado e continuado. Gente supostamente bem informada e inteligente aparenta não ter ainda acomodado realidades factuais elementares. Esta é a época da neo-televisão, caracterizada pela mistura de géneros, onde a informação é posta em cena como se se tratasse de um espectáculo, imperando a máxima de que “o nosso jornal não poderá nunca terminar antes do de outro canal”. Reforçando-se as dimensões narrativas e dramáticas do caudal noticioso, o que importa é, num tempo breve, dar-se o máximo de notícias. Mas como o tempo limitado tem tendência a contribuir para o apagamento das problematizações e para a simplificação, os entrevistados, ainda que imbuídos das melhores intenções, são autenticamente cilindrados por entrevistadores sedentos de sangue, que não poupam os melhores professores universitários. De nada vale ir à televisão com o angélico propósito de esclarecer ou de (in)formar. Fiquem em casa. Aprendam com as mulheres na cozinha e ajudem o pequeno nos trabalhos de casa. Se saírem, só farão asneira. Calem-se. Não permitam que os “media” determinem a maneira de pensar. Eles nem sempre buscam a explicação. Preferem a narração dramatizada ao esclarecimento.
Nesta lógica de comunicação em “palimpsesto”, que parece facilitar a assimilação e em razão do exposto, as palavras que sempre vos direi serão: recato, comedimento, sensatez e exigência.
 
José Manuel Alho
 

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Coxos em fins de Agosto

por alho_politicamente_incorreto, em 29.08.08

 

Os coxos nunca

dançam sozinhos

  
Mais uma manhã de domingo. Agosto está a ofegar os derradeiros suspiros, como quem anuncia uma depressão sazonal, a confirmar, para tristeza dos pragmáticos, que o Homem não foi feito nem pensado para trabalhar. Confortado pela literatura desportiva, a sancionar mais um triunfo dos lagartos, disponho-me, com o descomprometimento de umas exóticas bermudas, a sentar-me numas daquelas esplanadas que me cospem para a solidão dos PA (Pensantes Anónimos). Formalizado o pedido, ao jeito dos que insinuam a promíscua veneração de um afilhado em tempo de Páscoa, anseio a confirmação, sob a forma de um café cheio com uma casquinha de limão – adereço incontornável para derrotar a dor de cabeça imposta pela angústia inerente à véspera de qualquer jogo disputado pelo glorioso SLB – de um ritual exclusivamente “alhesco”. Em bom rigor, já “estava em estágio”.
Senhor da minha pose de intelectual domingueiro, eis-me importunado por um SS (Sofredor Solidário), dos tais que, sendo colega de profissão, se distingue pela pertinácia dos que ousam saber “mamar” por lograrem “chorar” com inigualável sentido de oportunidade. Como eu, professor. Daqueles que supostamente usufruíram de formação académica superior para promoverem e divulgarem a Matemática. Em fins de Agosto, e apesar de ser, como o “je”, profissional dos quadros, não sabe onde irá trabalhar daqui a uns dias – inícios de Setembro. É a vida. Estamos em Portugal. Nada é como devia ser.
Como quem “bate” um ás de trunfo na decisão de uma discutida “suecada”, atira para a outrora serena e neutra mesa do café um jornal diário ostentando em primeira página o óbvio entre parceiros de missão razoavelmente informados: “Esgotados Antes do Começo das Aulas – com o atraso das colocações e sem férias, 10% dos professores chegam às escolas a precisar de baixa.”
“Já visto isto? Que país é este?!” – disparou o inconformado colega, cruzando com determinada veemência o seu peludo par de pernas, envergando um par de peúgas em homenagem ás homéricas desventuras d’Os Simpsons. Ainda que sem o charme e a sedução de movimentos protagonizados pelas enleantes mas clássicas sandálias de “moi même”, retorqui: “tem calma. O pior ainda está para vir…” Nas páginas interiores, o periódico dava conta de (mais) receios na divulgação das listas definitivas, de um início de ano lectivo a preocupar grandemente os Pais e Encarregados de Educação e, finalmente, dos estragos na saúde mental dos docentes. A jornalista – que deve ter algum familiar na embrulhada… – dignou-se consultar um neuropsicólogo que, do alto da sua douta sabedoria, lembrava que os professores podem, com toda esta trapalhada que se arrasta há demasiados meses, padecer de “uma forma muito grave de esgotamento limite”, algo que os pode “incapacitar para a prática do ensino por um período máximo de dois anos”. O especialista, imagine-se, do Instituto de Inteligência no Porto consultado pelo jornal alertava para o facto de “o atraso na colocação de professores constituir um factor muito negativo, fazendo com que muitos docentes padeçam de ansiedade exógena, uma forma de agressão resultante dos problemas da vida”. Em complemento, a peça jornalística, que definiu clinicamente o impressivo mal de saúde como “burn out”, prevenia para a forte possibilidade de, em consequência desse esgotamento, os docentes poderem manifestar desconforto e perturbações de humor”. Enfim, nada que os alunos já não tenham experienciado em devido tempo.
“Finalmente, alguém se lembrou que somos gente! Só pensam nos pais e nas mamãs dos meninos que só os aturam no Natal e na Páscoa… ” – satirizou o caro professor de matemática. Eu, que só reclamava um amanhecer globalmente vulgar, estava agora instigado também a pensar no meu futuro profissional imediato porque, sendo professor, sou igualmente casado com… uma professora. Curiosamente, também somos pais. Isto é, temos uma filha. Azares…
Já sentado a meu lado, na mesa onde esboço possíveis onzes iniciais do Benfica de acordo com os adversários, o indignado amigo conseguira inquietar-me. Até ele chegar, por opção, decidira concentrar-me nos proveitos das possíveis opções tácticas de Quique para o jogo na Luz com o FCP: Cardoso ou Nuno Gomes ou até Aimar; Moreira ou Quim; Leo ou Maxi, Rúben Amorim  com ou sem Yebda, em resumo, uma parafernália de interrogações que importaria digerir com sensata racionalidade.
Desconfortavelmente rendido, ao ponto de não sentir necessidade de ripostar, engelhei meu convencido queixo como que sancionando o alcance das tiradas do dilecto colega. Inesperadamente, opta, irritado, por deixar-me novamente só. “Estou farto desta profissão. Ninguém nos respeita! Vou ligar-me à Internet à espera de novas…”
Quando discernia os primeiros passos, virou-se para trás e, já com o diário esmagado por uma mão vigorosamente fechada, surpreende-me com um pensamento que sempre esperaria de um filósofo, mas nunca de um matemático: “nós, os professores, estamos sempre entregues à nossa sorte. Não temos muletas. Não conhecemos o amparo dos que nos deviam proteger. Preferem sempre empurrar-nos para este circo como quem atira para a arena um coxo, esperando que interprete, com irrepreensível encanto, a ópera “Philoméla”, sem nunca antes sequer ter percebido a simplicidade das modinhas do Quim Barreiros. E mesmo assim, temos de dançar…”
Em Portugal, os coxos nunca dançam sozinhos, previno eu.
José Manuel Alho

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Centro de Transportes de Albergaria

por alho_politicamente_incorreto, em 29.08.08

 

Centro Coordenador de Transportes de Albergaria
Degradação aumenta preocupação da população e utentes
Depois de contactado por mais de uma dezena de leitores que insistentemente me alertou para o processo de acelerada degradação do Centro Coordenador de Transportes (CCT), importante infra-estrutura que parece votada a um contraproducente abandono.
Em visita ao local, constatei um vasto leque de situações que atestam uma realidade excepcionalmente perturbadora. No caso particular do CCT, que abriu portas em 1989, cumpre reconhecer que se trata de um importante equipamento, indispensável a uma vila que tem uma posição geoestratégica vital nas comunicações rodoviárias. Por ali passam, por mês, milhares de pessoas que percorrem o país de norte a sul, não ignorando as carreiras internacionais, oriundas de cidades tão prestigiadas como Corunha, Sevilha, Madrid, Paris, Nice, entre outras que asseguram a ligação a países tão civilizados como a Bélgica, a Suíça ou a Holanda.
Nesta perspectiva, a conservação, a manutenção e valorização daquela infra-estrutura deverão, defendem os leitores, merecer sempre uma atenção particularmente continuada da edilidade.
Na verdade, o CCT, para quem o vê ou ali chega pela primeira vez, não tem qualquer grafismo, de dimensões proporcionadas, a identificar a localidade onde se integra, à semelhança do que acontece, por exemplo, com a ponte aérea para peões, que atravessa o IC2 para fazer a ligação com o Bairro do Jogo. Muitos, quando ali param ou saem para tomar o seu café retemperador, julgam estar em Viseu ou em Oliveira de Azeméis.
O aspecto exterior, conspurcado com grafites, ilustra uma deterioração relativamente inaceitável para os dias de hoje, com tijoleiras no chão e outras a anunciarem para breve a sua queda. As bocas-de-incêndio exteriores não têm mangueiras; o espaço destinado aos táxis não tem placas identificativas com o respectivo número e as passadeiras quase deixaram de ser ver, como que a rogarem nova pintura.
Lá dentro, o cenário ganha proporções de maior gravidade. Não existem papeleiras em quantidade suficiente, as grafites inundam tudo que é parede ou superfície coberta de azulejos, com inscrições obscenas; os sanitários individuais já não têm portas (!); um dos telefones – o que está colocado no exterior da sala de espera – foi roubado e quando o café encerra portas, normalmente pelas 22 horas, não há como fazer uma chamada de emergência; a qualidade do som para veicular as informações indispensáveis ao regular funcionamento daquele Centro Coordenador é miserável; os cais/terminais para os autocarros estão deficientemente sinalizados; os autocarros que ali permanecem à noite têm sido frequentemente vandalizados, algo que aconselharia a contratação de um guarda-nocturno, já para não falar na última “gracinha” que constou de os “amigos da brincadeira” terem arranjado modo de chegar ao relógio central e retirarem o vidro e os ponteiros, deixando apenas a carcaça do inocente para recordação de algo que, uma vez, existiu.
Em face deste relato necessariamente breve, e porque este mal-estar feito de preocupação pode não ter chegado aos serviços camarários por ali não haver, por exemplo, um Livro de Reclamações ou uma mera Caixa de Sugestões, aqui fica o alerta, esperando-se que a Câmara Municipal estime, neste como noutros casos, o seu património pois há benfeitorias que não requerem grande investimento, apenas uma optimização racional dos diversos recursos disponíveis, até em armazém. Bem sabemos que não se pode fazer tudo de uma vez pelo que se impõe estabelecer uma lista de “pequenas grandes coisas” que só abonarão em favor daqueles que, (re)conhecendo os problemas, procuram, de forma metódica, resolvê-los paulatinamente. É uma questão, numa primeira instância, de profissionalismo, mas também de brio e carinho para com equipamentos públicos absolutamente relevantes.
Muitos só aqui estiveram, ou pelo menos só por aqui passaram, devido ao Centro Coordenador de Transportes. Foi um cartão-de-visita que levaram nas suas bagagens. A questão que nos devemos colocar a todos é: será este tipo de “souvenirs” que temos para oferecer a quem por Albergaria passa, ou saberemos ter algo de melhor para apresentar?
 
NOTA: Três autocarros arderam no Centro Coordenador de Transportes por volta das 5.00 horas da madrugada do passado dia 28 de Agosto. As viaturas estacionadas naquele centro de camionagem ficaram totalmente destruídas, aguardando-se no momento pelo resultado das diligências da PJ.
Curiosamente, em Junho passado, com fotos bem elucidativas, o “Jornal de Albergaria” e o semanário "Região de Águeda" denunciaram o estado a que estava, há muito, votada aquela importante infra-estrutura, aberta ao público em 1989. Nessa peça, entre outros defeitos e sintomas de degradação, assinalámos: “O aspecto exterior, conspurcado com grafites, ilustra uma deterioração relativamente inaceitável para os dias de hoje, com tijoleiras no chão e outras a anunciarem para breve a sua queda. As bocas-de-incêndio exteriores não têm mangueiras; o espaço destinado aos táxis não tem placas identificativas com o respectivo número e as passadeiras quase deixaram de ser ver, como que a rogarem nova pintura.”, lembrando “(…) os sanitários individuais já não têm portas (!); um dos telefones – o que está colocado no exterior da sala de espera – foi roubado e quando o café encerra portas, normalmente pelas 22 horas, não há como fazer uma chamada de emergência; a qualidade do som para veicular as informações indispensáveis ao regular funcionamento daquele Centro Coordenador é miserável; os cais/terminais para os autocarros estão deficientemente sinalizados; os autocarros que ali permanecem à noite têm sido frequentemente vandalizados, algo que aconselharia a contratação de um guarda-nocturno(…)”. Eis que o pior entretanto aconteceu.
 José Manuel Alho
 

 

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CRÓNICA-Uma Vida, Uma Casa, Uma Herança

por alho_politicamente_incorreto, em 29.08.08

 

 
Uma Vida, Uma Casa, Uma Herança 
 
Nuno recebera uma proposta de trabalho absolutamente irrecusável. Depois de muitos anos a queimar as pestanas na universidade, sentira o doloroso impacto da realidade que cedo se adivinhou adversa. O ingresso na vida activa, bem longe de corresponder às expectativas de um engenheiro em telecomunicações, reservou traumáticos ensinamentos num atelier de reparações de computadores. Há sete meses casado com Mariana, o presente era gizado com o fino traço da ilusão, num conluio afinado mas irracional da ambição com a ingenuidade. A cada plano, em qualquer delírio verbalizado em voz alta, os dois rasgavam horizontes, especulando com o melhor da sua imaginação. Queriam mais da vida.
Mas voltemos à janela profissional entretanto escancarada. Apresentaram a Nuno a possibilidade de ter um cargo por muitos disputado numa operadora de telemóveis, que forçava a mudança para o litoral. Na verdade, uma cidade com grande tradição piscatória. Além de um chorudo ordenado, somava-se um subsídio para despesas de fixação e uma viatura descaracterizada da empresa. Depois de descobrir que havia sido indicado pelo seu orientador de estágio – homem de grande prestígio naquele sector e profundo admirador das excepcionais capacidades do antigo aluno – não foi preciso muito tempo para dar uma resposta. O jovem casal disse sim ao desafio. Os dois quiseram entregar-se a uma aventura que os marcaria para toda a vida.
Chegados à cidade de acolhimento, a prioridade foi para a escolha de um novo ninho. Como os incentivos financeiros permitiam opções de qualidade, recorreram aos serviços de uma imobiliária. Numa tarde, tinham conhecido quatro hipóteses de residência. Nenhuma delas lograra arrebatá-los. Já sem grande esperança em convencê-los, a guia jogaria o último trunfo. Uma moradia junto ao mar, usada e por isso já mobilada. Na verdade, a casa parecia uma aguarela saída dos projectos mentais que os dois tinham sonhado. Isolada, cravada numa zona essencialmente verde, com o mar sempre em pano de fundo, onde o enleante zunido das ondas ameaçava o tórrido silêncio do lugar, era a habitação que há muito verdadeiramente desejavam.
Como os bolos apetecidos nunca dispensam uma cereja, o preço de aquisição era surpreendentemente acessível. Tomados pelo assombro da oportunidade, apressaram a formalização do negócio. Uma pechincha. Já se imaginavam a mostrar as divisões dos seu novo reduto aos pais, vangloriando-se de terem conseguido materializar um sonho inesperadamente feito realidade.
No dia da mudança, recolheram os longos lençóis brancos que tudo tapavam. Detiveram-se a contemplar o novo palco das suas vidas. Quanto mais viam, mais orgulhosos ficavam. “Olha para estes móveis! Já reparaste como a luz do sol inunda a casa inteira?” – constava Mariana inebriada pelo pasmo de cada instante.
O certo é que a moradia tinha mesmo tudo. Móveis, quadros, tapetes, cerâmicos decorativos, candeeiros de singular bom-gosto, enfim, um lar que parecia feito de encomenda. Até um quarto para bebé parecia ter sido carinhosamente preservado.
Contudo, um estranho sentimento os assaltou logo na primeira noite. E nas seguintes. Sim. E nas seguintes também. O misterioso é que os dois relatavam sentir o mesmo. Uma presença estranha que os acompanhava e observava. Experimentavam uma tristeza incomensurável, uma dor perturbadora, uma súbita e inexplicável vontade de simplesmente saírem dali. Ficaram particularmente angustiados pelo facto de em muitas gavetas terem visto meias de homem, camisas impecavelmente vincadas e outras peças de vestuário feminino concebidas para uma silhueta irrepreensível. Na sala de estar, por exemplo, até molduras propositadamente caídas mas sem retratos encontraram numa amálgama de objectos reconhecidamente pessoais. Tudo parecia ter e estar no seu lugar.
Contactaram a imobiliária para expor a situação. Do outro lado do telefone, notaram uma indiferença deliberada. Apenas diziam. “Faça o que quiser. Dê ou queime. Isso agora é tudo seu”. A casa era isolada e o lugar quase inabitado. Procuraram alguns populares mas todos se esquivaram a conversas. Indagar sobre o passado daquela casa era assunto proibido. Acentuou-se o desassossego. Nuno e Mariana retrocediam nas passagens do seu mais recente filme. Casa boa, barata, num local privilegiado merecia ser publicitada pela imobiliária com maior visibilidade em vez de ser relegada para quinta opção.
Embrenhado nos seus pensamentos, o nosso engenheiro em telecomunicações abre ao acaso uma gaveta da requintada secretária. Descobre um CD onde, com tinta de acetato, está escrita a palavra “fotos”. Aberta a pasta, visualiza um casal, na casa dos trinta anos. Ela, de esperanças, beija um marido de olhos cansados. Sucedem-se fotografias como retalhos de uma vida que aparecem encaixados num mosaico colorido de memórias. Nuno imprime algumas imagens e faz uma pequena investigação. Chega a conclusões.
A casa havia sido construída por Eduardo, um empreendedor armador da zona. A pulso, construíra aquilo que muitos já chamavam de império. Deu emprego a muita gente. Estava bem na vida. Casado com Leonor, tinha erguido uma casa que ele próprio desenhara desde a adolescência. Há ano e meio que tinha comprado um iate.
Na primeira viagem, acompanhado pela mulher com seis meses de uma muito desejada gravidez, foi surpreendido por uma tempestade. Não regressaram. A mãe dele ficou sem o seu único filho. O desgosto esgaçou-lhe o coração e sonho de ser avó. Não voltou mais àquela casa de ilusões. Decidiu vendê-la tal qual ficou no último dia.
Nuno e Mariana eram afinal estranhos numa casa sem preço. Escolheram depois um apartamento para viabilizarem o seu projecto de vida. Tiveram sucesso. Vão ser pais dentro em breve. Estão felizes.
Os lugares e as coisas transformam-se em legados quando tocados pela energia humana. Não é por caso que às vezes nos sentimos mais em casa ou menos à vontade com alguém. No mais, estamos talhados para fazer a diferença, deixando a nossa marca. Há quem lhe chame herança. E há heranças não se compram nem se vendem…
 
José Manuel Alho
 

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Porque ela morreu...

por alho_politicamente_incorreto, em 29.08.08

 

Porque ela morreu…
 
Esgotada por uns sapatos que só sabe existirem para casamentos e baptizados, muito longe do temperamento descomprometido dos ténis da semana, Celina entra de rompante no quarto da malograda D. Lúcia, pessoa que sempre conheceu por se dizer sua mãe. Mais do que o cheiro da presumível saudade, o quarto, desde os tapetes à mesa-de-cabeceira, indicia carregar o austero peso de um desaparecimento, acentuado pelo incontornável desgaste de um funeral pejado por aqueles aromas que há muito celebram a inevitabilidade da morte.
Por momentos, o silêncio ameaça ser ensurdecedor ao ponto de infligir o fino dano que, nos casos mais ostensivos, se sabe poder ganhar a forma de lágrima que escorre com o subtil encanto de uma recordação irrepetível. Celina martiriza-se porque, simplesmente, ousa não reconhecer-se no turbilhão imprevisível dos sentimentos que lhe turvam aquilo que sempre definiu como atributos da lucidez e bom senso. Como que querendo fintar a verdade imposta pelo facto de ser agora uma filha sem mãe, ela aceita enfrentar as contradições de um coração em acérrimo litígio com a razão. Sabe mas não percebe o que sente.
Liberta da possibilidade de ser contrariada, criticada e satirizada pelas opções mais rotineiras e finalmente inacessível ao desmando estético da progenitora, Celina ousa deitar-se naquela cama para então desferir destemido olhar rumo a um tecto amarelecido por dias consecutivos vedado ao sol de uma manhã que se quer apreciada no calor apaziguador de todo e cada um dos seus raios. Impelida pela perplexidade de um padrão ingovernável de pensamentos, que se cruzam nos insondáveis entroncamentos da lógica que emprestou à sua vida, permite-se, sem vergonha ou acanhamento, sentir-se filha de alguém. Em nenhum momento havia ponderado experimentar semelhante sensação de pertença. Afinal, da criatura que lhe disseram ser sua mãe, de cujo ventre havia despertado para a vida, só conhecia a garantia de uma discussão, o hábito de um grito de censura ou a frouxa tarimba de um conselho dado com a rispidez de um lancinante açoite.
Só, no meio de estatuetas sem história, adornos fúteis e retratos dignos dos mais sentidos bocejos, Celina vislumbra-se numa das fotos plantadas na ancestral camilha da família. Não parece perdida naquele chorrilho de imagens. Era mesmo ela, no dia da sua primeira comunhão. Ainda enleante e inocentemente sedutora, reconhece-se naquele apertar de mão com a que, poucos anos mais tarde, haveria de ter por sua primeira e imprevista opositora.
Sem se deter, opta por abrir, com a expectativa de quem desbrava novo traçado para a mais disputada cachoeira, todas as gavetas do santuário que sempre aprendera a respeitar. Com a delicadeza de quem remexe em tesouro alheio, para mais tarde não ser identificado, a jovem e casadoira pediatra procura, procura sem saber ao certo o que pretende encontrar. Está possuída por uma indomável curiosidade, algo que no passado sempre tolerou por estar no limiar da indiferença.
Por entre livros de autores conservadoramente consensuais e outros adereços de conjuntura, Celina toca num emaranhado de papéis que desdobra com a avisada cautela que acompanha a construção de um gigantesco puzzle. Andou na universidade. Estudou. A linguagem constante naqueles documentos, que logo percebeu serem relatórios clínicos, continha adjectivações técnicas demasiada e inesperadamente graves, que escapavam ainda assim à sua especialidade. Não demorou muito para descobrir que “mui” venerável D. Lúcia havia afinal padecido de doença prolongada e provadamente incurável. Empedernida pelo impacto de uma surpreendente revelação, abre determinada o pequeno baú onde desde sempre supôs recolher-se as riquezas - vulgo jóias - da família. Coberto por um inconfundível lenço de seda comprado na última deslocação a Lourdes, depara-se com um bem arrumado arsenal de medicamentos.
Atordoada, sem esboçar qualquer plastia digna do reino dos vivos, vê a sua alucinante odisseia interrompida pelo pai, o bonacheirão António Medeiros. Sem dificuldade, ele não vê necessidade de compor qualquer discurso. Entrega-lhe um envelope com o seu nome estampado. Lá dentro, um texto manuscrito com a caligrafia cuidada da falecida. No início, bem centrado na espessa folha de papel, podia ler-se:
-“Minha querida filha,”
Pai e filha trocam terno e previsível olhar, seguido de forte abraço. António Medeiros, em jeito de lamento, sentencia “ela sempre gostou de ti. Tinha muito orgulho por seres finalmente pediatra, algo que os teus avós nunca lhe permitiram desejar. Recusou contar-te a verdade porque entendia que tamanha notícia poderia afectar a dedicação à profissão que sempre quis ter.” Sentindo o imperativo de deixar só a filha, dirige-se para a porta e já com a mão na maçaneta, que tantas discussões havia despoletado aquando da sua escolha, sussurra cabisbaixo: “pena que nunca to tenha dito…”
Celina quer chorar. Vai chorar por sente valer a pena. Na morte, deixara de sentir-se órfã.
José Manuel Alho

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Estudos desconhecidos atestam que o desamor combate-se com lanches...

por alho_politicamente_incorreto, em 28.08.08

 

O Lanche da Caridade

 

 

 Clube das Sandes 

Ingredientes: (para um grupo  de amigos em que a cotação do(a) homenageado(a) não vale mais que um lanche pago)
1 litro de Pena;
10 dl de Seguidismo;
15 fatias de Favores em Dívida;
1 kg de Falta de Personalidade;
1 lata de “Tolerância ao Ridículo”;

200 gr de cérebro de cão obediente; 
1 Colher do molho “O Dono Manda…”;
500 gr. de cagança inócua (para enfeitar);
MEDO qb.
 
Preparação:
Bater bem o litro de PENA, deixando-o diluído para que, depois de misturado com 10 dl de Seguidismo, possa cobrir as 15 fatias de Favores em Dívida. Cobrir com 1 kg de Falta de Personalidade; levar ao forno um pouco para derreter de vez a Falta de Personalidade.
Fritar sem hesitações o conteúdo da lata “Tolerância ao Ridículo”.
Barre as 15 fatias de Favores em Dívida com 1 colher de chá do molho “O Dono Manda”.
Coloque por cima MEDO qb, 200 gr. de cérebro de cão obediente e 500 gr. de cagança inócua, só para enfeitar.
Bom apetite!

 
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Envie-nos uma, e veja-a aqui.
 
 
 

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Ser "velho"

por alho_politicamente_incorreto, em 27.08.08

 

Se vieres,
bate à minha porta
“Onde raio estão os comprimidos?!”, inquere o exasperado Felisberto, trémulo e ainda confuso por um amanhecer dolorosamente luminoso. Numa cozinha onde as conservas do atum e das sardinhas sobressaem por entre uma amálgama de embalagens plásticas salpicadas por umas dispersas mas secas migalhas de boroa, o nosso idoso, rigorosamente a caminho das oito dezenas de vida, busca com os olhos a resposta que a sua cabeça já não é capaz de processar.
Encontrar os comprimidos que o Dr. Arnaldo passou a prescrever logo após o falecimento de Rosa, a companheira que não resistiu às exigências do derradeiro sprint de uma doença que também já ataca “moças novas”, é a saga matinal desta alma solitariamente acutilante. Espartilhado por um corpo em progressiva descaracterização, entrega-se ao vigor de um punhado de boas recordações pontualmente esburacadas por uma memória intermitente. Nunca como agora se viu assaltado pelos lampejos de uma meninice que os putos de hoje não saberiam conceber. Nascido num lar com oito irmãos, cedo aprendeu a esperar pela sua fatia. As maiores e as mais grossas estavam destinadas ao pai e aos dois manos mais velhos, que trabalhavam e garantiam o sustento da casa.
“Ah! Sempre aqui estavam!”, constata orgulhoso quando descobre os comprimidos perto da caneca branca com listas azuis. Senta-se. Com o rosto credor de um escanhoar apurado, aconchega-se esticando as mangas do seu borbotado roupão. De regresso ao passado ainda presente, lembra os dias de festa onde se integrava nos esquadrões que perseguiam as raspas de queijo, um dos petiscos mais ardilosamente procurados pelos petizes camaradas. Na escola, a memória dispensa a nitidez para um sorriso que sanciona a inocência dos tempos em que se enchia uma meia com farrapos para jogar à bola até à exaustão. De quando em vez, lá se jogava ao eixo mas era o fofo esférico que colhia a unânime preferência do pessoal.
Com o passar dos anos, logrou apreciar os encantos de uma chouriça caseira embrulhada em papel mata-borrão e assada num braseiro sabiamente mantido pelo velhote. Veio o casamento e o nascimento dos três rapazes. Foi testemunha do casamento de dois e participou no funeral do mais velho, colhido mortalmente por um camião quando regressava de uma bem regada farra dominical. Nos bons e nos maus momentos, registou sentimentos em harmonia com os cheiros que cada acontecimento ajudou a cristalizar. Sim, porque a vida é feita de cheiros, de aromas emprestados que celebram a inevitável volatilidade das coisas. Agora, reconhece que lhe vão faltando os aromas. A capacidade para cheirar a vida parece depender do turbilhão de medicamentos que se impuseram como formigas em redor de um açucareiro esquecido.
Os filhos têm vidas difíceis, engolidos pelas dificuldades de um quotidiano crescentemente mecanizado. Acredita que não está esquecido, mas não esquece o dia em que pela última vez abriu a porta da sala. “Talvez seja melhor assim”, pensa em jeito de atenuante porque os deméritos da velhice nunca atraíram ninguém. Por exemplo, as inseparáveis ceroulas com que enfrenta os rigores do Inverno apresentam um amarelecimento suspeito, motivo de uma vergonha que se quer privada.
Não sabe porquê mas este ano parece ter privilegiado dois interlocutores para preencher os seus prolongados silêncios. A velhice apazigua o espírito e ousa aproximar extremos com a fina ironia de uma chuva de Verão. Bastas vezes dá por si a falar com Deus como se ali estivesse um atento camarada de armas. Outras vezes entrega-se a um discurso pessimista que define afinal um optimista bem informado. Fala da morte com a Morte. A um e outro, sem azedume ou egoísmo, repete um pedido com direito de resposta assegurado: se vieres, bate à minha porta.
José Manuel Alho
 

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RAIVA mortal

por alho_politicamente_incorreto, em 25.08.08

 

A Raiva matá-los-á
mas a Morte libertar-vos-á
 A mãe de Diogo, mulher com portentosa força braçal, que faz dela uma jóia da natureza em singular harmonia com as terras que cultiva, achou as queixas do filho - que agora constatara estar com febre - credoras da sua preocupação. Os gemidos de Diogo por culpa de umas estranhas mas constantes dores de cabeça condoíam o seu coração telúrico até porque o miúdo apresentava um mal-estar generalizado.
Neste últimos tempos e às horas das refeições, o tormento para o convencer a comer era crescente. Ele bem que se queixava que lhe doía a garganta e de não ter grande apetite. Nos últimos dias, até confessou à irmã que se sentia enjoado. Sofia, a mana caçula naquela tradicional família de agricultores, já confidenciara ao pai que estava difícil lidar com o irmão, com bruscas mudanças de comportamento, rematando “ela anda muito irritado!”.
Nesta situação que desassossega qualquer um, D. Alzira, a mão do nosso jovem Diogo, tomara a decisão de levar o rapaz ao Hospital. Eis se não quando ele, lá do fundo do curral, grita “venham cá!! Fui mordido por uma cobra! Depressa!!”. O pai chegara mas a cobra já se escapulira. Chamaram a ambulância. Durante a viagem, além de se queixar que parte da sua perna parecia estar anestesiada, só pedia à mãepara tomar conta do Afogado, o cão salvo pelo pai quando a morte quase o engoliu nas águas do rio lá da aldeia. Era ele o seu grande amigo, dos tais comparsas que se recrutam para as finas cumplicidades da vida. Além do Afogado, Diogo rogava protecção para os três canários cuja guarda sempre lhe coubera: Guloso (come que se farta!), Enjoado (quase que não come...) e Camarada, que está sempre pronto a ripostar aos estímulos do tratador.
Na unidade de saúde, os médicos procuravam investigar o tipo de cobra que o teria mordido. Só havia três hipóteses em função da especificidade daquele universo rural. Estabeleceram uma estratégia mas os fármacos não reverteram a situação. Instalara-se uma misteriosa apreensão. Os médicos sentiam estar numa encruzilhada. O tempo passava e Diogo estava já com a febre alta, delírios, contracções musculares e nem a água conseguia engolir.
Lá em casa, como que demonstrando uma dolorosa solidariedade, Afogado também havia mudado o seu comportamento. Procurava locais escuros para se abrigar, deixou de se alimentar e recusava atender aos (outros) donos da casa. O latido do cão era muito característico, emitido num duplo tom que jamais será esquecido por quem o ouviu. “O animal sente a falta do Diogo...” garantia o vizinho Armindo, enxugando com o lenço  os olhos enternecidos em razão de tamanha sensibilidade animal.
Ao fim de três dias, a consciência do nosso jovem estava prestes a abandoná-lo. Antecipava-se um quadro de coma. O sofrimento esgaçava até a equipa hospitalar que o acompanhava. Numa conversa mais séria e privada com a médica de família, que sempre merecera a empatia de Diogo, revela-se a verdade infelizmente tardia: Afogado tinha mordido o seu dono, que decidira poupá-lo ao abate. Ele sabia que o animal não estava inoculado com a competente vacina anti-rábica. Ironicamente, a Raiva estava a matá-los. Sim, porque a Raiva não tem cura. A morte é certa porque a propagação do vírus não poupa o cérebro.
Esgotados sete dias após o traiçoeiro ataque de Afogado, Diogo morreu. Afogado, que não conseguia locomover-se nem fechar o maxilar, babando-se copiosamente, enfrentou o tão temido abate.
No dia do funeral, Osvaldo, como pai enlutado, fez-se acompanhar de uma gaiola de madeira que ele próprio construíra. Lá dentro, espavoridos, estavam: Guloso, Enjoado e Camarada. O progenitor, chorando como uma criança, repousou a sua mão direita no caixão do filho e disse: “foste sempre um bom menino. A todos estimaste e protegeste, com carinhos e mimos, os que de ti dependiam. Restam estes canários. Vou libertá-los porque agora é que estariam presos.” Abriu a gaiola e e a multidão reunida no cemitério testemunhou a partida do trio que um dia foi livre sem conhecer os céus.
A Raiva matou uns mas a Morte libertou os outros.
José Manuel Alho
 
 
NOTA FINAL:Ainda que ficcionada, esta história aborda uma temática de interesse público. A Raiva é uma doença infecciosa aguda e fatal. O contágio dá-se pela saliva do animal que está com a infecção, principalmente pela mordida, mas pode ocorrer por arranhadura ou lambedura. O tempo médio de surgimento dos sinais de doença são de cerca de 45 dias no homem e até 2 meses nos animais. Os sintomas estão profusamente descritos na personagem do Diogo. A mortalidade da doença é de 100%. Aliás, o período de evolução do quadro clínico varia de 5 a 7 dias.
Para evitar-se a doença, é fundamental vacinar os animais susceptíveis, principalmente cães e gatos. Os animais apresentam como sintomas iniciais aqueles que Afogado manifestava: alteraações de comportamento, procura de lugares escuros para se abrigarem (Fotofobia), deixam de se alimentar, de beber água e de reagirem quando instados pelos donos. O latido ("duplo tom") de um cão com raiva facilita o diagnóstico da doença. Existem vacinas para cada espécie de animal.
Como já se fez notar, a Raiva, quando declarada, não é curável. Por isso, os meios profiláticos de vacinação são apenas preventivos e não curativos. Quando mordido por um cão suspeito de estar com Raiva, a vacinação subsequente do homem deve ser efectuada com máxima urgência de modo a que o organismo humano fabrique, a partir do estímulo da vacina, os anticorpos necessários à detenção da propagação do vírus em direcção ao cérebro.
Portugal, fruto de uma campanha de vacinação em massa, logrou erradicar este mal. Mas o risco persiste, em especial nos meios rurais.
 

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